Duas cenas na primeira meia hora de O Curioso Caso de Benjamin Button indicam que o filme poderia surpreender. Em uma delas vemos Queenie (Taraji P.Henson) descobrindo um milagre, "não como se espera": o corpo de um bebê envelhecido como uma uva passa. Mais tarde, esse bebê rejuveneceu alguns anos, e encontra o amor de sua vida debaixo de uma mesa, à luz de uma vela. Belíssimo momento de captação do olhar da menininha que crescerá Cate Blanchett. Infelizmente, quanto mais vemos o pequeno monstrinho se transformar em Brad Pitt mais chato o filme fica.
David Fincher continua com a mania boba de repetir indicações para não perder o espectador. Em Zodíaco, eram os malditos biscoitos em forma de peixe (ou coisa que o valha), que o infantilóide do personagem de Mark Ruffalo passa anos comendo. Em Benjamin Button é o senhor que sempre comenta que foi atingido sete vezes por um raio. Na primeira vez, temos duas dessas visões. Como o filme irá repetir isso até o final, ficamos com a certeza de que as outras visões viriam mais cedo ou mais tarde. Nada errado com esse procedimento se acompanhar a trama já não fosse um certo sacrifício.
Um tema como esse que o Fincher abordou, baseado num conto de F.Scott Fitzgerald, não me parece pedir esse tratamento "realista". Bem entre aspas o realista, porque um bebê nascido velho e rejuvenescendo com o passar dos anos é tudo menos realista. Mas supondo que isso pudesse acontecer, todo o tratamento dado para os personagens que se envolvem com ele fazem com que sejam mais interessantes do que ele próprio, e isso não foi culpa do Brad Pitt.
Tomemos como exemplo a Queenie. Quanto mais ficamos distantes de seus olhos grandes e sedentos de afeto e cuidado, mais o filme se torna desinteressante. O mesmo acontece com a Daisy de Cate Blanchett, que quanto mais envelhece mais enfadonha fica (de novo, não é culpa da atriz). Ou com o capitão do navio. Benjamin parece um anjo, sem defeitos, sem um momento de raiva, dor, revolta. Um justo, sempre, assim como todos os que o rodeiam. Mas todos envelhecem como a gente, Benjamin não. Logo, esse tratamento demasiado humano dado ao personagem simplesmente não cola.
Em Raros Sonhos Flutuantes, filme de Eizo Sugawa que tem uma trama bem parecida, não se chega tão perto de um realismo, a não ser, claro, no comportamento dos personagens nos momentos específicos que o filme escolheu mostrar. Mas a simples escolha dos momentos obedece a uma lógica nada realista, pois está calcada na fantasia. Nada é explicado também, pelo que lembro. Vemos somente um caso de amor ameaçado por dois caminhos que vão em direção oposta: enquanto um envelhece, a outra rejuvenesce, e não há idade que interrompa esse amor (daí o escândalo, mas também a beleza). O desejo é mais forte que a consciência, e a pungência não vem apenas de uma melodia óbvia tocada no piano, mas da cruel situação que é um obstáculo ao pleno desejo. Tudo é efêmero, mas não se abandona, nem se teme o desejo, essa é a principal diferença.
Benjamin Button, ao contrário, mostra desejos sendo represados o tempo todo, e carrega demais nas notas açucaradas de piano, na voz ensopada da narradora no final do filme (Daisy, agonizando no hospital), no desejo de capturar a emoção do espectador a qualquer custo.
Sei não, mas prefiro Se7en e Vidas em Jogo a esses dois últimos e elogiados filmes do Fincher. E a safra do Oscar está um horror, já que Slumdog Millionaire também é um fiasco e O Leitor é abaixo da crítica.

Já que ninguém mencionou a semelhança entre O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher, e Raros Sonhos Flutuantes (1990), de Eizo Sugawa, sinto-me na obrigação de homenagear aqui um dos maiores diretores japoneses, e um dos mais injustiçados também.
No filme de Fincher, que ainda não pude ver, Brad Pitt nasce velho e vai rejuvenescendo. É baseado num conto de F. Scott Fitzgerald, e tudo leva a crer que Fincher, mesmo se tiver feito seu melhor trabalho, não tenha chegado aos pés de Sugawa em sua derradeira obra, em que um homem de meia idade conhece uma idosa num hospital, e com o passar dos dias essa senhora vai rejuvenescendo até virar uma menininha.
Raros Sonhos Flutuantes (Tobu Yume Wo Shibaraku Minai), feito dois anos depois de O Rio dos Vagalumes (um dos filmes da minha vida), tem uma infinidade de planos antológicos, com destaque para o último, a caminhada de mãos dadas entre o homem e a menina, pequenina, com os dois se afastando da câmera.
O filme de Sugawa é baseado num romance de Taichi Yamada, e foi exibido uma única vez no Brasil, na 20ª Mostra Internacional de São Paulo, em 1996. Curiosamente, essa obra-prima, assim como a anterior, O Rio dos Vagalumes, não está disponível em lugar algum, nem no Japão - a não ser em fitas VHS mofadas, mas nem mesmo assim foi encontrada por um amigo que viaja sempre para lá. Já o filme do Fincher, qualquer dia eu encaro. Se for 10% do que é o do Sugawa, já ficarei bem feliz.
(por Sérgio Alpendre)

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